Impulsionada pelos elogios nas redes sociais, a “Cocada dos Brunos” nasceu de uma necessidade e virou negócio nas mãos do microempresário Maciel Bruno. Há 20 anos produzida de forma artesanal dentro de casa, a marca conquistou espaço no mercado de Oeiras, no Piauí, unindo tradição, organização, estratégia para crescer e o impulsionamento do Programa Acredita no Primeiro Passo. 

Para o produtor, tudo nasceu de uma necessidade urgente e de um forte senso de responsabilidade, ainda na adolescência, quando descobriu que seria pai.

“Eu comecei a preparar a receita e vender cocada por uma necessidade e pelo senso de responsabilidade. Fui pai muito novo, ainda na adolescência, e meu filho estava para nascer. Naquela época, eu não tinha profissão, era apenas um adolescente. Até nos estudos eu estava atrasado, tinha perdido quatro anos na escola”, contou Maciel.


O microempreendedor Maciel Bruno transformou a produção artesanal de cocadas em um negócio reconhecido em Oeiras, no Piauí (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)


Sem emprego e ainda tentando recuperar o tempo perdido nos estudos, ele enxergou na produção do doce uma forma de garantir o básico para a chegada do filho.

“Naquele tempo, meu objetivo era comprar o enxoval. Então comecei a fazer cocada de madrugada, quebrava os cocos logo cedo e, quando era meio-dia, a cocada já estava pronta. Aí eu saía para vender e, à tarde, ia estudar.”

Da receita de família ao primeiro investimento

Muito antes de se tornar um negócio estruturado, a cocada já fazia parte da história da família Bruno. A receita veio da bisavó, conhecida pelo sabor marcante do doce que atravessou gerações, embora nem a avó nem a mãe tenham conseguido reproduzir exatamente o mesmo ponto. Foi ele quem conseguiu resgatar esse sabor e transformá-lo em empreendimento.

Maciel aprimorou a receita, testando quantidades, ajustando ingredientes e estudando o mercado para encontrar a fórmula ideal. O ponto certo do açúcar, a escolha do leite, o tipo de coco e até a procedência dos insumos passaram a fazer parte de um processo pensado com cuidado. Hoje, por exemplo, o leite utilizado na produção é comprado diretamente de fazendeiros da região.

Segundo o profissional, cozinhar sempre foi um dom familiar, mas ninguém antes havia conseguido transformar isso em um negócio de grande escala.

“A minha bisavó fazia cocada, minha tataravó também, todo mundo cozinhava, mas ninguém teve a oportunidade de empreender e montar um comércio no ramo alimentício em longa escala”, contou Maciel.


O microempreendedor Maciel Bruno transformou a produção artesanal de cocadas em um negócio reconhecido em Oeiras, no Piauí (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)

Foi com o apoio do Programa Acredita no Primeiro Passo que esse cenário começou a mudar. A iniciativa reúne capacitação profissional, incentivo ao empreendedorismo e acesso ao crédito por meio de instituições financeiras parceiras, facilitando o caminho para pequenos empreendedores que desejam estruturar o próprio negócio.

Na região Nordeste, um dos principais agentes financeiros do programa é o FNE (Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste), que possibilitou a Maciel tirar do papel o sonho de montar sua própria fábrica de cocadas.

Com o primeiro empréstimo, ele investiu na reforma do espaço e na compra de materiais para a produção, transformando uma área da própria casa em uma pequena fábrica.

A rotina era intensa e exigia disciplina. Entre madrugadas na cozinha, vendas no comércio e entregas nas escolas, o produtor conciliava trabalho e estudo com a meta bem definida de conquistar o necessário para sustentar a nova fase da vida.

“Passei mais ou menos sete, oito meses nessa peleja até conseguir vender essa cocada e comprar todos aqueles mantimentos, fraldas, mamadeira, tudo mesmo, sem ter condição e sem ter sequer uma bicicleta direito para andar pelos pontos e pelas escolas. Naquele tempo, meu principal objetivo era deixar a cocada nas escolas e no comércio também”, disse, emocionado.


Na pequena fábrica montada dentro de casa, a produção segue com tradição familiar, organização e dedicação diária (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)


Hoje, a Cocada dos Brunos já opera com uma estrutura maior. A pequena fábrica emprega trabalhadores que atuam em diferentes etapas da produção. Enquanto Rosa Maria acompanha o tacho onde leite e açúcar ganham consistência, José manuseia a máquina de corte do coco.

Cada fornada rende cerca de 14 quilos do doce, e a produção mensal abastece mais de 20 pontos comerciais em Oeiras e outros municípios, tudo com certificação da Agência de Defesa Agropecuária do Piauí (ADAPI). Além disso, o próprio filho participa da operação fazendo entregas na cidade.

Com o crescimento do negócio, Maciel já projeta novos passos. Além da expansão da cocada, ele pretende iniciar em breve a produção de temperos, ampliando ainda mais a atuação da fábrica e consolidando o empreendimento que nasceu de uma receita de família e ganhou força com oportunidade e financiamento.

Sabores que conquistaram o mercado

Além da receita tradicional que marcou o início da trajetória, a Cocada dos Brunos também diversificou o cardápio com versões criativas que chamam a atenção dos clientes tanto pelo sabor quanto pela apresentação.

Entre os destaques está o chamado “copão de cocada”, uma porção generosa de meio quilo, pensada para quem não economiza na sobremesa. Outra opção bastante procurada é a cocada cremosa, preparada em um ponto diferente da receita tradicional.

“Aqui nós apresentamos o nosso copão de cocada, que é um copão de cocada de meio quilo. E tem essa cocada também, cocada cremosa. A cocada cremosa é uma cocada antes do açúcar cristalizar.”


A tradição da Cocada dos Brunos atravessa gerações e transforma uma receita de família em um negócio de sucesso no Piauí (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)


Outro produto que desperta curiosidade é o tradicional quebra-queixo, conhecido popularmente pela textura mais firme. No entanto, o profissional explica que a proposta da marca é justamente oferecer uma versão mais macia e agradável ao consumidor.

“Esse aqui também é o nosso quebra-queixo. O diferencial é que hoje eu estou até mudando o nome para doce de beijo de queixo, porque ele não fica muito duro e, ao contrário do quebra-queixo tradicional, não vai quebrar o dente de ninguém”, disse.

Entre as criações mais diferentes está ainda a apresentação feita na própria casca do coco, que acaba se tornando parte da experiência do produto e chama atenção pela originalidade.

Uma das versões mais diferentes utiliza a própria casca do coco como recipiente da sobremesa, tornando o produto ainda mais atrativo visualmente e reforçando a identidade artesanal da marca.

“O que a gente utiliza é a química do coco, é assim que a gente costuma chamar a casca, e dentro dela, a gente coloca a cocada cremosa.”

A fábrica está sendo ampliada com novos equipamentos adquiridos com recursos do programa Acredita no Primeiro Passo, do MDS. O empréstimo de R$ 17 mil deu impulso à produção e garantirá uma reforma na estrutura.

novos planos

Com o crescimento da produção e a fidelização dos clientes, o microempreendedor agora projeta os próximos passos do negócio. O objetivo principal é investir em estrutura para ampliar a capacidade de fabricação e atender uma demanda ainda maior no mercado piauiense.

A principal meta é adquirir um novo equipamento que permita automatizar parte do processo, reduzindo o trabalho manual e aumentando significativamente a produção diária.

“A partir do momento que eu colocar um tacho automático eu vou acelerar o processo. Em vez de fazer 14 quilos de cocada em um tacho, eu vou para 90, 100 quilos. Eu dou um salto e tanto e consigo fazer o comércio do Piauí com toda facilidade”, destacou.

Mais do que expandir o negócio, Maciel carrega uma visão afetiva sobre aquilo que produz. Para ele, vender cocada também significa espalhar alegria e leveza em tempos difíceis.

“O meu sonho é adoçar o mundo. Nesse mundo cheio de guerras, quem sabe se, em vez de confronto, as pessoas compartilhassem mais afeto e até uma boa cocada, talvez mudassem de ideia e o mundo tivesse mais paz e harmonia”, disse Maciel.

Mais do que vender cocadas, o fundador do negócio transformou necessidade em oportunidade e fez da simplicidade um empreendimento de sucesso por meio do Programa Acredita no Primeiro Passo. O que começou como uma alternativa para garantir o enxoval do primeiro filho hoje se consolida como uma marca reconhecida, com identidade própria e planos de expansão.

Entre tachos, receitas e criatividade, a família segue com o mesmo propósito de sempre: adoçar vidas e abrir novos caminhos.

Série "A Vida Mudou": Meio Norte mostra transformações no Piauí (Foto: Divulgação/TV Meio Norte)

"A VIDA MUDOU"

O Grupo Meio Norte de Comunicação inicia a exibição da série especial “A Vida Mudou – Histórias Reais de Transformação”, um projeto jornalístico que mostra como piauienses estão mudando de vida por meio da educação, do empreendedorismo e do acesso a programas sociais, com exibição no programa Agora – Jogo do Poder e nas múltiplas plataformas do Meio Norte.