Na comunidade quilombola Campo Alegre, em Jacobina do Piauí, a produção que antes servia apenas para abastecer a mesa de casa ganhou novos caminhos. O que era plantado na roça para o consumo da família passou a circular além dos quintais, movimentando a economia local. Com a inserção no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), os agricultores passaram a ter destino certo para parte da produção e encontraram na própria tradição um novo sustento.

Ali vivem 18 famílias de agricultores que, por muitos anos, mantiveram a chamada agricultura de subsistência. As produções na cozinha faziam parte da rotina doméstica, mas raramente ultrapassavam os limites da própria casa. Com o PAA, essa lógica começou a mudar.

Hoje, a produção tem destino certo. O alimento sai das mãos de quem planta, prepara e transforma, e segue diretamente para quem precisa, garantindo renda para as famílias e mais segurança alimentar para outras pessoas.

Na comunidade quilombola Campo Alegre, a produção de alimentos transformou tradição em fonte de renda para dezenas de famílias.  (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)

Produção coletiva e renda compartilhada

O trabalho se concentra principalmente na casa da farinha, espaço que funciona como ponto de encontro e também como símbolo da força comunitária.

Segundo Rosiane Silva, estudante de gastronomia e presidente da associação quilombola, a produção acontece de forma coletiva e organizada entre as famílias, que dividem tarefas e quantidades conforme a demanda de cada entrega. 

“A gente se reúne, aí divide as quantidades por cada pessoa, e as pessoas produzem nas suas casas, ou às vezes juntas se reúnem e produzem a quantidade. Depois trazem tudo para cá, para a casa da farinha, e aí vem o carro, pega, e eles levam”, explicou.


O beiju, a farinha e os bolos artesanais carregam sabor, memória e sustento (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)


É ali que o dia começa cedo. A lenha já está queimando enquanto a mandioca, arrancada da plantação, passa por um processo que atravessa gerações. Raspar, tirar a goma, preparar a massa, assar o beiju, tudo segue um saber aprendido com os mais velhos, repetido com cuidado e precisão.

O Programa de Aquisição de Alimentos fortaleceu não apenas a comercialização, mas também incentivou o aumento da produção. O que antes era feito em pequena escala passou a atender uma demanda maior, com compradores garantidos.


Agricultora Isabel Maria da Silva (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)

Conforme explica a agricultora Isabel Maria da Silva, cada etapa exige tempo e trabalho manual.

“Da mandioca, a gente arranca ela, raspa, tira a goma, que é a tapioca, para o beiju. E da massa da mandioca a gente faz a farinha, que é passada toda nesse forno. Cinquenta, cem... E daí a gente trabalha com o projeto, a gente trabalha também entregando o beiju feito assim, na hora”, contou a agricultora.

Além do beiju e da farinha, a comunidade também produz bolos, doces, pães caseiros, biscoitos e legumes. Tudo encontra destino certo, e isso trouxe uma nova perspectiva para quem sempre viveu da terra.

Mulheres que sustentam e transformam

A força da produção em Campo Alegre tem rosto feminino. A maior parte de quem participa do programa são mulheres que conciliam o trabalho no campo, a rotina da casa e a responsabilidade de garantir renda para o lar. 

Para Rosiane, que acompanha de perto essa mudança dentro da comunidade, o acesso ao programa despertou uma nova perspectiva entre as famílias.

“Quando chegou pela primeira vez aqui essa oportunidade, a gente agarrou com força e coragem, e isso foi o bastante. A gente fica muito feliz. Despertou o fazer, produzir e vender, e aí foi onde gerou um pouco de renda para as famílias da comunidade”, afirmou Rosiane.


Rosiane Silva, estudante de gastronomia e presidente da associação quilombola  (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)


Além de presidir a associação quilombola, ela também estuda gastronomia e leva para a cozinha coletiva novos conhecimentos sem abrir mão da tradição. É dela, por exemplo, a receita do bolo com cacau e café sem lactose.

Ao mesmo tempo, sabores ancestrais seguem firmes na mesa, como os biscoitos de grade, preservando receitas que resistem ao tempo.

A base de quase tudo começa no polvilho - ou, como elas preferem chamar, na goma. Ingrediente simples, mas essencial, que sustenta famílias inteiras e carrega memória afetiva. É dele que saem os sequilhos, os bolos e tantas outras receitas que passam de mãe para filha, mantendo viva uma forma de fazer que não se aprende em livros.

Rosiane Silva, estudante de gastronomia e presidente da associação quilombola  (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)

O forno que guarda memórias

Com o dinheiro arrecadado pela venda dos produtos, a própria comunidade investiu na estrutura da cozinha coletiva. Foi assim que chegaram novos equipamentos, como o forno industrial, que hoje ajuda a acelerar a produção e permite atender uma demanda maior.

Mas, mesmo com a chegada da tecnologia, há algo que permanece intocável: o apego ao forno de barro e ao fogão a lenha. Mais do que utensílios, eles representam herança familiar, memória e pertencimento. 

É nesse forno tradicional que ainda são assados o bolo de grade, o bolo de sequilho e diversos bolos doces, além de carnes e frangos preparados da mesma forma que antigamente. O sabor, segundo elas, continua insubstituível.

O forno industrial pode ser mais rápido e eficiente, mas a comida feita no fogo de lenha ainda carrega aquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir: o gosto da tradição.

Muito presente nas antigas fazendas e nas casas da roça, o fogão a lenha sempre esteve ligado à ideia de comida farta e caseira. Com o passar do tempo e a modernização das cozinhas, ele foi deixando de ocupar espaço em muitas casas brasileiras, tornando-se, em vários lugares, apenas peça decorativa ou atrativo do turismo rural.

Em Campo Alegre, no entanto, essa cultura segue viva.

Ali, cozinhar no fogo de lenha não é nostalgia, é permanência. É uma forma de preservar a identidade, fortalecer vínculos e lembrar que, antes de virar fonte de renda, o alimento sempre foi também afeto e continuidade.

No fim, o que o Programa de Aquisição de Alimentos trouxe para a comunidade foi mais do que mercado e comercialização. Trouxe autonomia e reconhecimento.

"A VIDA MUDOU"

O Grupo Meio Norte de Comunicação inicia a exibição da série especial “A Vida Mudou – Histórias Reais de Transformação”, um projeto jornalístico que mostra como piauienses estão mudando de vida por meio da educação, do empreendedorismo e do acesso a programas sociais, com exibição no programa Agora – Jogo do Poder e nas múltiplas plataformas do Meio Norte.