A rotina começa antes mesmo do sol nascer. No silêncio da madrugada, homens atravessam o manguezal em busca do sustento que depende, quase sempre, do próprio corpo. Durante décadas, foi assim que o pescador e catador, Marcos Antônio Costa, hoje com 58 anos de idade, construiu a vida.
Em Ilha Grande, no litoral do Piauí, a pesca e a catação de caranguejo moldam o cotidiano de muitas famílias. No Canto do Loquinho, comunidade onde ele vive, o percurso até o Porto dos Tatus marca o início e o fim de jornadas longas, repetidas por anos, até que o corpo impõe limites. Depois de uma vida inteira no mangue, Marcos Antônio precisou parar.
“Tem dois anos que eu arrebentei os tendões na minha perna. Então, para catar caranguejo hoje não tem condição. Eu conseguia manter a casa, e a minha esposa cuidava das meninas, que eram pequenas. Eu comecei a trabalhar com 14 anos. Passava a semana toda catando caranguejo”, lembrou.
O pescador e catador, Marcos Antônio trabalhou por décadas no manguezal, mas precisou deixar a atividade após uma lesão que comprometeu sua mobilidade (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)
Quando o trabalho já não sustenta
A interrupção do trabalho trouxe incertezas. Sem a renda que mantinha a casa, a família precisou encontrar outra forma de seguir. Foi nesse momento que o Bolsa Família passou a fazer parte da rotina.
Aqui, não se trata apenas de assistência, o acesso ao benefício toca em um princípio que sustenta toda a Constituição brasileira: a dignidade da pessoa humana. Previsto como fundamento da República, esse direito se traduz, na prática, na garantia de condições mínimas para viver.
Como já observava o filósofo alemão Immanuel Kant, enquanto as coisas têm preço, as pessoas têm dignidade. E, para muitas famílias, essas políticas são as únicas alternativas que ajudam a transformar esse princípio em realidade - especialmente quando o trabalho já não pode mais sustentar a vida.
“O que ajudou foi que a minha esposa, Rosilda, se inscreveu no programa e foi contemplada. Isso ajudou muito a nossa família, ajudou na criação dos nossos filhos. A gente conta com essa ajuda todos os meses. E sabe o que ela faz, né? Dá segurança.”, pontuou Marcos.
Com o benefício, a família conseguiu reorganizar a vida. O dinheiro, ainda que limitado, passou a garantir o básico e trouxe estabilidade em um cenário que antes estava marcado pela imprevisibilidade.
Na região, histórias como a de Marcos Antônio se repetem. O programa se tornou uma das principais formas de amparo para famílias que dependem de atividades informais e fisicamente exigentes.
Sem poder continuar no trabalho, o Bolsa Família se tornou apoio essencial para manter a casa (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)
O caminho até o benefício
O acesso ao programa passa por etapas que começam nos Centros de Referência em Assistência Social, responsáveis pelo cadastro das famílias no Cadastro Único, base de dados que reúne informações de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Criado há mais de duas décadas, o sistema se consolidou como ferramenta essencial para a inclusão em políticas públicas. Em Parnaíba, por exemplo, cerca de 19.200 famílias recebem o benefício, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social.
No CRAS, moradores realizam o cadastro no CadÚnico, etapa essencial para acesso a benefícios sociais (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)
Quando a vida muda de direção
A realidade da dona de casa, Socorro Brito, também foi atravessada por uma mudança brusca. Acostumada a trabalhar como diarista, ela viu a rotina desmoronar após um diagnóstico que a afastou definitivamente do trabalho. Além das preocupações com a saúde, surgiu também a dúvida sobre como isso impactaria a vida financeira.
“Eu era diarista, era normal para mim. Aí, em 2018, eu descobri um diagnóstico. Pronto, acabou. Meu mundo desabou.”
A dona de casa, Socorro Brito buscou regularizar a documentação do filho Kaleb, para manter o acesso a benefícios sociais (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)
Durante um tempo, ainda tentou manter a rotina. Mas os efeitos do tratamento tornaram isso impossível.
“Por um ano eu levei normal, mas quando os medicamentos começaram a ter efeitos colaterais, eu não pude mais trabalhar. Eu me sentia fraca, com tontura. Quando tinha dinheiro, eu estava bem; quando não tinha, não estava. Aí não tinha mais condições”, contou Socorro.
A indicação para buscar o benefício veio de fora, quase como um último recurso diante da instabilidade. Foi assim que o programa entrou na vida dela.
A procura pelo novo documento tem movimentado o atendimento diário no Instituto Félix Pacheco (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)
Etapas que fazem diferença
Para manter o cadastro atualizado, Socorro precisou levar o filho, Kaleb Brito, para emitir a nova Carteira de Identificação Nacional, documento exigido para garantir a continuidade do benefício.
A procura pelo serviço tem sido intensa. Em Parnaíba, o Instituto de Identificação Félix Pacheco registra uma média de 150 atendimentos diários, recebendo inclusive pessoas de estados vizinhos, como Maranhão e Ceará. Desde o início da emissão do novo documento, mais de 100 mil carteiras já foram expedidas no município.
Com alta demanda, o instituto realiza dezenas de atendimentos por dia, incluindo moradores de estados vizinhos (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)
Atendimento além do protocolo
De acordo com o Coordenador do Espaço Cidadania, Edvan França, a alta demanda exigiu adaptações no atendimento. Entre elas, a criação de espaços mais reservados para situações sensíveis.
“Teve uma situação de uma pessoa com HIV/AIDS que precisou de uma atenção melhor. Ela chorou no momento, então tivemos que tirá-la da sala e atender em outro espaço, só para fazer a foto”, relatou.
A experiência levou à criação de uma sala específica para atendimentos que exigem maior cuidado. O olhar voltado à humanização passou a orientar o acolhimento de casos mais sensíveis.
A estrutura do instituto inclui atendimento humanizado e recursos de acessibilidade, como intérprete de Libras (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)
“A gente percebeu que precisava de uma sala exclusiva para isso, para que esse constrangimento não aconteça”, completou.
Além disso, o local conta com intérprete de Libras, ampliando o acesso para pessoas com deficiência auditiva.
Direito que abre caminhos
A permanência nos programas sociais tem permitido a muitas famílias atravessar períodos de instabilidade financeira e, aos poucos, melhorar a qualidade de vida.
Um trabalho que, no cotidiano silencioso dos atendimentos, segue abrindo caminhos - uma pessoa de cada vez.
"A VIDA MUDOU"
O Grupo Meio Norte de Comunicação inicia a exibição da série especial “A Vida Mudou – Histórias Reais de Transformação”, um projeto jornalístico que mostra como piauienses estão mudando de vida por meio da educação, do empreendedorismo e do acesso a programas sociais, com exibição no programa Agora – Jogo do Poder e nas múltiplas plataformas do Meio Norte.
