O padre Amadeu Matias, da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Teresina, afirmou nesta sexta-feira (2) que a Igreja Católica pode enfrentar intolerância religiosa quando suas orientações são interpretadas como posicionamentos ideológicos. A declaração foi feita durante comentário sobre a cartilha e as orientações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para as Eleições 2026. Segundo o sacerdote, a Igreja pretende atuar pela convivência em uma sociedade plural e, quando precisa se posicionar, deve fazê-lo “nunca contra ninguém”, mas em defesa do bem, da verdade e da convivência humana.
Padre fala sobre intolerância religiosa
Amadeu Matias afirmou que a intolerância pode ocorrer quando pessoas não compreendem os posicionamentos da Igreja ou atribuem à instituição uma determinada orientação ideológica.
“Pode haver uma intolerância religiosa, digamos que alguém se coloque numa atitude de destruir uma imagem religiosa, de falar da igreja no sentido de não compreender nossos posicionamentos e já achar que nós temos uma posição ideológica.”
Segundo o padre, essa interpretação pode fazer com que a Igreja seja vista como uma instituição que contribui para divisões na sociedade, em vez de atuar pela união.
“A pessoa, então, acha que nós não estamos como agentes de união, de comunhão, mas estamos na sociedade, por vezes, favorecendo a divisão e isto, para nós, é um preço que nós pagamos.”
VEJA A FALA DO PADRE:
Orientações para as eleições
A manifestação ocorre no contexto das orientações divulgadas pela CNBB para o processo eleitoral de 2026. Em mensagem publicada em junho, a entidade afirmou que não indica candidatos nem partidos políticos, mas defende a participação consciente dos cidadãos e apresenta princípios relacionados à dignidade humana, ao bem comum, à democracia e à justiça.
Em Teresina, os vigários-gerais da Arquidiocese de Teresina, padres Amadeu Matias e Osório Teixeira Neto, divulgaram em 28 de setembro uma carta com orientações para as eleições. O documento afirma que o período eleitoral deve reforçar a democracia e evitar rivalidades. A Arquidiocese também declarou que a Igreja Católica não possui partido ou candidato, embora seja uma voz política a partir do Evangelho.
A CNBB também tem reforçado que a Igreja apresenta critérios para o discernimento dos eleitores, sem determinar uma escolha eleitoral. Em publicação recente, a entidade voltou a afirmar que não indica candidatos ou partidos e defendeu que os fiéis conheçam a trajetória, os compromissos e as propostas dos candidatos.
“O outro é sempre para ser amado”
Ao explicar a posição da Igreja diante de pessoas que possuem outras visões religiosas ou políticas, Amadeu Matias destacou a orientação cristã para a fraternidade.
“Quando nós dizemos que é importante a gente viver a vida fraterna e que o outro é sempre para ser amado e ajudado e nunca para ser condenado e, de alguma maneira, desprezado, as pessoas podem, de alguma maneira, achar que nós favoreçamos pessoas que erram.”
O sacerdote afirmou que o acolhimento de pessoas não significa, segundo a doutrina cristã apresentada por ele, deixar de reconhecer aquilo que a Igreja considera errado.
“Mas nós carregamos na nossa vida o amor de Cristo e o amor de Cristo, se Ele quer que o pecado não exista, o amor de Cristo acolhe sempre o pecador.”
Igreja diz que não quer confronto
O padre também afirmou que a Igreja procura manter uma postura de reconciliação mesmo diante de pessoas que se posicionam contra a forma católica de viver a fé.
“E, por isso, a igreja, quando tem esse reconhecimento de que, por vezes, há pessoas que se colocam contra o jeito católico de viver a fé cristã, de nossa parte, nós queremos ter um coração reconciliado em paz.”
Ao mesmo tempo, Amadeu Matias afirmou que a instituição deve reagir quando informações falsas ou injustas são atribuídas à Igreja.
“Mas, por outro lado, é evidente que não é interessante que as pessoas sejam injustas conosco e mintam e criem histórias que nos comprometem como instituição, como se estivessem dizendo coisas que a gente faz sem a gente fazer.”
Segundo ele, esse posicionamento não deve ser direcionado contra pessoas, mas baseado em princípios.
“Essa atitude é evidente que chega um momento em que a gente se posiciona na sociedade, mas a gente se posiciona nunca contra ninguém, mas sempre a favor do bem, a favor da verdade, a favor da convivência humana solidária, fraterna, justa.”
Convivência em uma sociedade plural
Amadeu Matias também destacou que a Igreja Católica está inserida em uma sociedade formada por diferentes religiões e defendeu a convivência entre essas práticas.
“Justamente praticando uma vida política em que nós vivemos num mundo plural, em que nós, católicos, queremos conviver com as pessoas de todas as práticas religiosas.”
O padre concluiu defendendo que diferentes grupos religiosos possam exercer livremente suas crenças.
“E, ao mesmo tempo, queremos que vivam e queremos que também eles deixem que nós vivamos.”
As orientações da CNBB para as eleições fazem parte de uma série de iniciativas da entidade voltadas à participação cidadã e ao discernimento dos eleitores. A instituição também lançou conteúdos de formação política que abordam democracia, ética, participação popular e convivência entre diferentes posições durante o processo eleitoral.