O Nordeste foi alvo de aproximadamente 27 milhões de manifestações críticas ou hostis nas redes sociais nas primeiras 72 horas após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, realizado no domingo (4). O número corresponde a 82,2% das 32,8 milhões de menções, compartilhamentos e links relacionados ao comportamento eleitoral da região monitorados no período.
Os dados são do estudo “O Nordeste no Banco dos Réus”, realizado pela Ativaweb DataLab e divulgado pelo jornalista Carlos Madeiro, do UOL, nesta quinta-feira (8). Apenas 17,8% das manifestações, cerca de 5,8 milhões, foram classificadas como neutras ou favoráveis aos nordestinos. O levantamento identificou maior presença de conteúdos hostis originados nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
O monitoramento registrou média de 456 mil menções por hora, ou mais de 7.600 por minuto. Os números incluem diferentes tipos de interação e não representam necessariamente publicações originais ou usuários individuais.
Para Alek Maracajá, CEO da Ativaweb DataLab e responsável pelo estudo, a repercussão ultrapassou a divergência política e atingiu a identidade regional.
“Quando o Brasil passa a apontar o dedo para uma de suas regiões, a disputa eleitoral já ultrapassou a política e chegou à dignidade”, afirma Maracajá.
O pesquisador também avaliou que o volume de manifestações poderia indicar uma mobilização coordenada. Essa, porém, é uma interpretação do responsável pelo estudo, e os dados divulgados não demonstram, por si só, que os conteúdos tenham sido produzidos ou disseminados por um mesmo grupo.
Ataque xenofóbico contra a região Nordeste nas redes sociais | Foto: Reprodução
Ataques associam voto nordestino à pobreza e ignorância
O monitoramento analisou dados públicos do Facebook, Instagram, TikTok, X, Kwai e comentários do YouTube. Segundo o estudo, os ataques nem sempre aparecem por meio de insultos diretos, mas também em associações depreciativas relacionadas à origem e ao comportamento eleitoral dos nordestinos.
A categoria mais frequente foi a de vergonha e autodepreciação, responsável por 26,9% dos registros classificados. Em seguida aparecem conteúdos que associam o voto nordestino à pobreza e à dependência econômica, com 22,1%, e manifestações que questionam a capacidade intelectual dos eleitores da região, com 18,3%.
Outras duas categorias representaram 12,5% cada: desumanização e segregação territorial, esta última incluindo manifestações favoráveis à separação do Nordeste do restante do país.
Vergonha da própria origem aparece entre os registros
O estudo também identificou a participação de usuários que se apresentam como nordestinos e reproduzem mensagens depreciativas sobre a própria região.
Segundo a pesquisa, publicações de pessoas que demonstravam vergonha da origem ou pediam desculpas por serem nordestinas alcançaram dezenas de milhares de interações. Para os pesquisadores, esse comportamento pode contribuir para a circulação e legitimação de estereótipos por outros usuários.
“O preconceito atinge seu estágio mais perigoso quando a vítima passa a repeti-lo como se fosse opinião própria”, afirma Maracajá.
Preconceito regional pode configurar crime
A legislação brasileira prevê punições para práticas de discriminação ou preconceito relacionadas à procedência nacional. A Lei nº 14.532/2023 alterou dispositivos relacionados ao racismo e estabeleceu regras específicas para crimes praticados ou divulgados por meios de comunicação e redes sociais.
A caracterização de uma publicação como crime, entretanto, depende da análise do conteúdo e das circunstâncias. Críticas a candidatos ou ao comportamento eleitoral não configuram, automaticamente, discriminação.
“Liberdade de expressão protege a crítica ao voto. Não protege o desprezo por quem vota”, afirma o CEO da Ativaweb DataLab.
Pesquisa aponta possível efeito na reta final
O estudo também aborda possíveis reflexos da onda de hostilidade na reta final da campanha presidencial. Segundo os pesquisadores, manifestações discriminatórias e propostas de segregação podem provocar uma reação entre os eleitores atingidos e reforçar sentimentos de identificação regional.
A possibilidade, no entanto, é apresentada como hipótese da pesquisa, e não como demonstração de que os ataques já tenham alterado intenções de voto.
O levantamento retrata, assim, a repercussão do resultado do primeiro turno nas redes sociais e mostra que parte significativa das manifestações relacionadas ao voto nordestino assumiu tom crítico ou hostil, segundo os critérios adotados pela Ativaweb DataLab.