Da sala de aula da escola pública aos centros tecnológicos internacionais, estudantes da rede estadual do Piauí mostram, na prática, que o acesso à educação de qualidade é capaz de romper ciclos históricos de desigualdade e projetar futuros antes inimagináveis. O que antes parecia distante passa a ser possível quando o ensino se torna ponte entre origem e destino.
Com políticas educacionais voltadas à formação integral, à preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e ao incentivo à inovação, o ensino público piauiense vem conectando o presente de milhares de jovens a oportunidades no Brasil e no exterior. Mais do que aprovações, o que se constrói são trajetórias.
Para pais e familiares, acompanhar esse percurso é motivo de orgulho e esperança. Walton Carvalho, radialista de Campo Maior e pai da estudante Iasmin Carvalho, relata que, ao longo da sua vida profissional lidando diariamente com notícias, passou a perceber um padrão recorrente: a juventude frequentemente aparece nas páginas policiais, muitas vezes como reflexo direto da ausência de oportunidades.
“Pois é, porque como eu trabalho com informação também, com notícia, né, no âmbito local lá de Campo Maior, a gente sempre traz as notícias de Teresina, dos portais, a gente comenta. E há muita reincidência: é muito comum ver os jovens, a maioria dos infratores acaba sendo jovem. A gente vê que há uma sede, um desejo de ter, de possuir, de conquistar bens, né, mas, claro, da forma errada”, relatou.
Alunos participaram de jantar de despedida antes do intercâmbio em Singapura (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)
A experiência profissional se mistura à vivência pessoal e reforça uma convicção construída ao longo dos anos: investir em educação é a forma mais concreta de transformar realidades.
“Eu sempre comento que não adianta só trazer a notícia ruim. A gente traz uma lição, um aprendizado. E o que realmente pode mudar a vida de um jovem, mudar a realidade, é a educação. É investimento em educação. É muito proveitoso, muito necessário.”
A fala traduz o sentimento compartilhado por muitos pais que veem, nos filhos, a possibilidade concreta de um futuro diferente daquele que lhes foi imposto.
Onde existe escola, existe futuro
Alunos piauienses participam de intercâmbio para Singapura
Em pequenos municípios, povoados da zona rural e assentamentos da reforma agrária, a escola pública ultrapassa o papel do ensino formal. Ela representa permanência, dignidade e a construção de um projeto de vida. Para muitos estudantes, é também o primeiro contato real da família com a perspectiva de acesso ao ensino superior.
Entre os jovens que carregam esse sonho está Ana Vitória Barbosa, que enxerga na educação uma oportunidade de transformação pessoal e ampliação de horizontes.
“A expectativa é aprender mais. Que eu volte de lá não da mesma forma como eu vim, mas com mais conhecimento. Que isso seja uma oportunidade, algo que se abra na minha vida para aprender ainda mais”, afirmou.
Mais do que preparar para provas e avaliações, as salas de aula tem se consolidado como espaço de descoberta, amadurecimento e reconhecimento de talentos, ajudando os estudantes a identificarem interesses e traçarem caminhos possíveis. Para Enzo Emanuel Batista, esse ambiente foi determinante tanto para o seu desenvolvimento quanto para a definição dos seus caminhos profissionais.
“Foi onde eu tive o melhor desenvolvimento. Estou me inspirando em engenharia de software ou em defesa de cibersegurança. São grandes áreas, grandes mercados de trabalho abertos. Eu estou estudando aqui para ver se consigo uma vaga no Google. Vai ser uma das visitas do Centro Tecnológico. Vai ser uma das metas cumpridas”, contou.
Antes da viagem, estudantes compartilharam um momento de troca, expectativa e celebração (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)
Orgulho que atravessa gerações
Os pais representam uma maioria silenciosa marcada pela emoção. Em muitas famílias, os estudantes são os primeiros a vislumbrar uma graduação, resultado de anos de incentivo, sacrifício e fé na educação como caminho de mudança.
Entre relatos cheios de emoção, os responsáveis destacam que a roça, o trabalho pesado e as limitações ficaram para trás, enquanto os filhos seguem por estradas antes inacessíveis. Para eles, ver um filho estudando, viajando e sonhando alto é uma felicidade difícil de traduzir em palavras. A realização dos jovens se transforma, automaticamente, na realização de toda a família.
Permanecer é tão importante quanto ingressar
Dados divulgados em novembro de 2025 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que o ingresso no ensino superior não garante, por si só, a conclusão da graduação. Os Indicadores da Trajetória da Educação Superior dos Cursos de Graduação por Instituição, produzidos a partir do Censo da Educação Superior, acompanham de forma longitudinal o percurso dos estudantes desde o ingresso até a saída do curso, seja por conclusão ou desistência, e evidenciam que a permanência ainda representa um dos principais desafios do sistema.
A análise dos indicadores revela que uma parcela expressiva dos estudantes rompe o vínculo com o curso de ingresso ao longo da trajetória acadêmica, especialmente nos anos iniciais, o que reforça que o acesso à universidade, muitas vezes celebrado como ponto de chegada, constitui apenas o início de um caminho marcado por obstáculos institucionais, socioeconômicos e pedagógicos.
Para jovens de baixa renda, bolsistas ou em situação de vulnerabilidade social, o ingresso só se consolida como oportunidade real quando acompanhado de políticas públicas de permanência, acolhimento institucional e redes de apoio.
Experiências que ultrapassam fronteiras ampliam perspectivas educacionais (Foto: Reprodução/Governo do Piauí)
Sem incentivo do Estado, ações de permanência e suporte contínuo, muitos desses jovens tornam-se mais suscetíveis à desistência, interrompendo trajetórias educacionais ainda em construção. As experiências vivenciadas na rede pública do Piauí indicam que a educação pública tem sido fundamental não apenas para abrir as portas da universidade, mas também para construir, ainda na educação básica, o valor da educação como projeto de vida, fortalecendo o desejo de ingressar e concluir a graduação.
Preparação, inovação e protagonismo
Em 2025, a Secretaria de Estado da Educação do Piauí (Seduc-PI) realizou 116 revisões do Enem, alcançando mais de 100 mil estudantes em todo o estado. A preparação incluiu laboratórios de redação, com um resultado expressivo: o programa acertou o tema da redação do exame, mostrando a qualidade do trabalho pedagógico e a preparação dos profissionais da rede pública.
Outro destaque é o SeducKathon, maratona de tecnologia e inovação voltada para estudantes do ensino médio e cursos técnicos da rede estadual. A iniciativa estimula o protagonismo juvenil, o pensamento crítico e a criatividade, conectando habilidades tecnológicas à solução de problemas reais.
Os participantes passam por etapas seletivas, com provas e desenvolvimento de projetos, e os melhores são premiados com intercâmbios internacionais em países como Alemanha, Estados Unidos, Portugal, Coreia do Sul, China e Singapura, experiências que ampliam horizontes e colocam jovens piauienses em diálogo direto com o mundo. A expectativa é de que, em 2026, essa rede de oportunidades se amplie e alcance ainda mais sonhos.
Alunos da rede estadual celebram conquistas e novos caminhos (Foto: Reprodução/Governo do Piauí)
Um mundo à vista
Mais do que aprovar estudantes em exames, transformar vidas exige presença, acolhimento e continuidade. Garantir que cada jovem possa permanecer na escola, se desenvolver com dignidade e sonhar alto é o que faz da educação pública uma verdadeira ponte entre o Enem e o mundo.